Justificativa


 

Vários aspectos têm sido ressaltados nas análises sobre a comunicação e divulgação científicas que tornam urgente uma investigação e experimentação de novas possibilidades de enfrentamento desse problema:

  •  o catastrofismo, alarmismo e sensacionalismo da cobertura feita pela imprensa;
  •  a infantilização da opinião pública recorrente nos artefatos de divulgação das mudanças climáticas (Pfeifer, 2013-2014);
  • a relação entre ciência e realidade apresentada insistentemente em termos de crença (Latour, 2001);
  • a criminalização dos comportamentos já estabelecidos e a adoção de mecanismos indutivos de mudanças de comportamento unilaterais, pautados numa compreensão superficial dos fenômenos estudados (Taddei, GAMBOGI, 2011);
  • a incapacidade da imprensa de pautar decisões políticas a respeito das mudanças climáticas (Antilla, 2005);
  • a postura normativa da comunicação, em que a falta de informação é associada aos comportamentos negativos, à falta de consciência, ao chamado analfabetismo científico, ao déficit de conhecimento (Vogt, 2003).
  • a representação de uma ciência fantástica e do culto à ciência, da qual se esperam soluções do tipo “passes de mágica” ou o alcance de curas milagrosas (Nelkin, 1995; Ripoll, 2001, 2007; Wortmann, 2009);
  • as narrativas saturadas de clichês em que palavras, imagens e sons fazem funcionar uma sintaxe representacional dominante, marcada pelas oposições entre humano-natureza, sujeito-objeto, ciência-política, pelas moralizações e julgamentos, e pelo desejo de conter e acomodar a vida na escrita (Dias, Luccas, Pestana, 2013);

A comunicação e a divulgação científicas ao mesmo tempo em que criam regimes de visibilidade das mudanças climáticas, também criam regimes de dizibilidades: o que se pode, e o que não se pode, dizer sobre o tema; como se pode, e como não se pode, dizer sobre o tema. Esses regimes são criados pelos modos como ciências são expressos e circulam em imagens, palavras e sons, operando uma certa partilha do sensível (Rancière, 2005).

Taddei e Gamboggi (2011), baseados em estudos internacionais, defendem que para que a comunicação e divulgação científicas tenham um mínimo de eficácia na orientação de políticas públicas precisam relacionar-se com, pelo menos, quatro dimensões da existência sociocultural do público: as formas como saliência, relevância, autoridade e legitimidade são percebidas, negociadas e construídas.

Bruce V. Lewenstein (2003) é um dos autores que destaca a necessidade de mais investigação sobre a comunicação pública da ciência e da tecnologia.

“Precisamos de maior compreensão dos objetivos e realizações de determinados tipos de atividades de comunicação pública – entendimento que pode ser alcançado, em parte, por consciência de que os modelos descritos acima são de trabalho em um determinado projeto de comunicação pública, e que as atividades de comunicação pública não cabem em qualquer destes modelos” (p. 11).

Este grupo – através da Sub-rede de Divulgação Científica da Rede CLIMA e do INCT de Mudanças Climáticas se propõe, portanto, não apenas a ampliar a comunicação e divulgação científica sobre o tema, mas, sobretudo, a diagnosticar e avaliar os modos como a comunicação e divulgação científicas têm se configurado nas diversas mídias e artefatos culturais já disponíveis, bem como propor novas formas de divulgação e de avaliação das efetivas potencialidades políticas da divulgação no que concerne à possibilidade da expressão das dimensões humanas das mudanças climáticas, à participação pública nos sistemas de ciências e tecnologias, à reflexão sobre a constituição do que se tem denominado como “cultura científica” e a problematização das relações entre comunicação e políticas públicas.

Partimos do pressuposto de que, para que a população interaja e reflita as implicações das mudanças climáticas nas mais distintas esferas (econômica, ecológica, política, de saúde, etc.), e participe ativamente na tomada de decisões no que diz respeito a essa temática, não é interessante nem pertinente que essa divulgação se baseie no modelo de déficit de conhecimento (que aposta na comunicação de “verdades científicas” por parte de especialistas a um público leigo e ignorante).

Compartilhamos, em nossas ações e pensamentos, da urgência de se propiciar formas de divulgação científica relacionadas às mudanças climáticas, não apenas numa urgência de mais divulgação, mas na urgência de se (re)pensar a divulgação. Uma divulgação que não pretende julgar, corrigir e estabilizar, mergulhada na mudança, errância e deriva sob o signo do risco, mas que possa apreender possibilidades políticas da mudança, da errância e deriva do pensamento e da criação como potentes para a comunicação e divulgação científicas.

Nesse sentido, buscaremos promover uma articulação entre as pesquisas desenvolvidas no âmbito deste projeto a produção de artefatos de comunicação e divulgação científicas, objetivando, na relação com o público, não estabilizar o pensamento pela produção e circulação de respostas e soluções prontas para os temas abordados. Essa escolha é importante na medida em que apostamos no público também como parte modificadora da própria comunicação, já que o que está em jogo não é o convencer o público, mas promover novas formas de pensar e provocar desestabilizações nas significações já dadas no que diz respeito às mudanças climáticas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LATOUR, Bruno. A esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos. Trad. Gilson César Cardoso de Souza. Bauru, SP: Edusc, 2001.

LEWENSTEIN, BV. Models of public communication of science and technology. Version: 16 jun. 2003. Disponível em:http://communityrisks.cornell.edu/Backgrou ndMaterials/Lewenstein2003.pdf Acesso em: jan. 2010.

NELKIN, Dorothy. Selling science. How the press cover science and technology. USA: Freeman and Company, 1995.

PESTANA, Fernanda; LUCCAS, Tainá; DIAS, Susana. Imagens e palavras tramam tempos, culturas e mudanças. Anais do II Seminário Internacional Empírika – Comunicação, Divulgação e Percepção Pública da Ciência e Tecnologia, 2013.

PFEIFFER, C. “Science and the dissemination of Science – the Illustrated Booklet on the Green Economy, Sustainable Development and the Eradication of Poverty” em Pieter LEROY (Radboud University Nijmegen, Netherlands) and Marie-Gabrielle SURAUD (CERTOP, Paul Sabatier University of Toulouse 3, France) (cords) Revue ESSACHES – Environment and communication, volume 7, n° 1(13)/ 2014. (aceito em 2013 no prelo).

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. Trad. Mônica Costa Neto. São Paulo: EXO experimental org.; ED. 34, 2005.

TADDEI, Renzo; GAMBOGGI, Ana Laura. Etnografia, meio ambiente e comunicação ambiental. Caderno Pedagógico, Lajeado, v.8, n.2, p.09-28, 2011.

VOGT, Carlos. A espiral da cultura científica. ComCiência, jul. 2003. Disponível em: <http://www.comciencia.br/reportagens/cultura/cultura01.shtml>. Acesso em agosto de 2009.

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